Nunca ouvi dizer que ninguém morreu de estudar

Escrito por Coluna da Major Elizete Lima em 24 novembro 2017

     No início deste ano, uma promotora de justiça denunciou publicamente a condição caótica de quatro escolas públicas situadas na zona rural de  Porto-Pi: casebres sem banheiros, água e energia elétrica. Segundo a reportagem exibida no portal G1, há 15 anos aquela situação se perpetua.

     Fico imaginando o dia-a-dia de professores e estudantes.

     O local escuro, sem ventiladores, chão batido, paredes de taipa, teto de palha… cenário para um filme perfeito que demonstra a nobre missão de ensinar e vontade imensa de aprender.

     Penso com que grau de boa-vontade (ou de necessidade) o professor ministra as aula, num calor escaldante típico de nosso estado. Como sou professora, também consigo imaginar o esforço para manter os alunos atentos, enquanto eles se abanam com o caderno ou uma folha qualquer; e parece que estou vendo a garotada em polvorosa, pedindo água após o intervalo, quando correram e brincaram como qualquer criança gosta de fazer, mesmo que posteriormente a temperatura do corpo lhes imprima sofrimento sem igual ao retornarem para sala de aula. E sem banheiros… abstenho-me de falar sobre isso, deixando para o leitor as conclusões sobre esse tópico.

     Enquanto isso, em Teresina, a Câmara de Vereadores realizou Audiência Pública para discutir propositura da extinção de realização de aulas aos sábados nas escolas particulares. Os nossos nobres representantes estão preocupados com o excesso de aulas, de tempo de estudo, de aprendizado de crianças e adolescentes da rede particular de ensino.

     Minha filha, que hoje está no 1º ano do ensino médio, estudou desde os 3 anos de idade em uma única escola particular, dessas que a carga-horária está sendo contestada (e não a matriculei em escola pública porque, embora eu pague impostos altíssimos, o estado não nos proporciona um ensino de qualidade, ou sequer escolas com condições dignas para acolher os alunos!).

     Ela estuda muito, todos os dias, à exceção dos domingos, dia dedicado a passeios e outras diversões. Desde muito pequena a regra é que o estudo é a prioridade, porque, meu pai já dizia, “não há outra forma de romper as barreiras de sua condição que não seja através da educação.” Nem por isso minha filha deixou de ter amigos, assistir filmes, usar redes sociais e já mais recentemente, paquerar. Porém, ela sabe que para cada coisa há que se ter um tempo devido e que o estudo, por enquanto, é o mais importante.

     Por isso eu contesto cada ponto arguido para que se reduza a carga-horaria de qualquer escola. E mais que contestar essa afirmação de que haveria prejuízos na saúde dos estudantes, indago: se são particulares os estabelecimentos, só matricula seu filho neles quem assim o quiser… ou não?!

     Na verdade, os vereadores deveriam mesmo era estarem preocupados com as escolas públicas, sobretudo aquelas que estão de portas fechadas; ou com a falta de vagas em creches e, mais ainda, com os baixos salários dos professores, que se veem obrigada a correrem de uma escola a outra, manhã, tarde e noite, para complementarem sua renda.

     Nunca ouvi dizer que ninguém morreu de estudar. Mas ouço sempre dizer, nos bastidores do poder, que “quanto menos o povo for esclarecido, melhor para a classe política”. Talvez por isso tanto queiram que estudemos menos!

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